Sua próxima entrevista de emprego pode ser feita por uma inteligência artificial

Sistema conduz avaliações técnicas, faz perguntas aos candidatos e permite até o uso de ferramentas de IA durante o processo seletivo.

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A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta usada por candidatos para conseguir emprego e começa a ocupar também o outro lado da entrevista.

A HackerRank disponibilizou o Chakra, um agente de inteligência artificial desenvolvido para conduzir entrevistas técnicas de emprego e avaliar não apenas as respostas apresentadas pelos candidatos, mas também como eles chegam às soluções.

A ferramenta realizou mais de 500 mil entrevistas durante aproximadamente seis meses de testes, segundo a empresa. Snowflake, Snorkel e Capgemini estão entre as companhias que experimentaram o sistema antes da disponibilização geral aos clientes da HackerRank.

A diferença em relação aos testes tradicionais está justamente no uso da inteligência artificial: em vez de impedir que o candidato recorra à tecnologia, o Chakra permite que ele utilize um assistente de IA durante a avaliação e analisa como essa ferramenta é utilizada para resolver problemas.

Como funciona uma entrevista feita por IA

A entrevista foi desenvolvida principalmente para avaliar profissionais de tecnologia.

Divulgação

O candidato recebe uma tarefa baseada em um repositório de código semelhante aos encontrados em situações reais de trabalho e utiliza um ambiente que inclui um assistente de inteligência artificial.

Enquanto a pessoa trabalha, o Chakra acompanha o processo e pode fazer perguntas adicionais.

Se o candidato escolher determinada abordagem para resolver um problema, por exemplo, a IA pode perguntar por que aquela alternativa foi escolhida ou como a solução precisaria mudar diante de uma nova restrição.

Segundo a HackerRank, o objetivo é avaliar competências como pensamento crítico, julgamento e resolução de problemas, além do resultado final apresentado.

Candidato pode usar inteligência artificial

Uma das principais diferenças do Chakra está justamente em permitir o uso de IA durante a entrevista.

A HackerRank chama uma das competências avaliadas de “AI fluency”, ou fluência em inteligência artificial.

Na prática, o sistema tenta identificar se o candidato consegue formular adequadamente um problema para uma IA, analisar criticamente a resposta recebida e orientar a ferramenta até chegar a uma solução útil.

A mudança parte de uma constatação da própria empresa: se ferramentas de inteligência artificial já conseguem produzir código e outros resultados técnicos, avaliar somente a resposta final pode não ser suficiente para medir a capacidade profissional de uma pessoa.

O processo de seleção passa, então, a observar também como o profissional trabalha em conjunto com a inteligência artificial.

HackerRank diz que uso suspeito caiu nas entrevistas

Permitir IA durante uma avaliação poderia parecer uma maneira de facilitar fraudes, mas a HackerRank afirma ter observado o movimento contrário durante os testes.

Segundo Vivek Ravisankar, cofundador e CEO da empresa, os alertas relacionados a atividades suspeitas foram entre 70% e 80% menores nas entrevistas realizadas pelo Chakra em comparação com avaliações tradicionais da plataforma.

Os percentuais variaram conforme fatores como localização geográfica e nível de experiência dos candidatos.

A explicação apresentada pela empresa é que, quando o candidato pode utilizar uma ferramenta de IA autorizada, diminui o incentivo para recorrer escondido a outros aplicativos ou dispositivos.

O Chakra continua monitorando comportamentos considerados suspeitos, incluindo o uso de aplicativos não autorizados ou ajuda externa durante a entrevista.

Uma entrevista pode substituir três etapas

A HackerRank também pretende reduzir etapas dos processos seletivos.

Ravisankar afirmou ao TechCrunch que uma entrevista realizada pelo Chakra pode reunir atividades que anteriormente eram divididas em três momentos: conversa inicial com recrutador, avaliação realizada pelo candidato e entrevista posterior com um engenheiro.

A empresa afirma atender mais de 3 mil clientes corporativos e possuir uma comunidade superior a 30 milhões de desenvolvedores.

O avanço do Chakra representa também uma mudança para a própria HackerRank, que construiu parte de seus negócios oferecendo desafios tradicionais de programação para avaliar candidatos.

IA não decide sozinha quem será contratado

Apesar de conduzir e pontuar as entrevistas, o Chakra não toma sozinho a decisão de contratar ou rejeitar um candidato.

Segundo a HackerRank, nenhuma saída produzida pela inteligência artificial determina por conta própria o resultado de uma contratação. A decisão final permanece com os responsáveis pelo processo seletivo.

A participação crescente da inteligência artificial em processos de contratação, porém, também levanta questões relacionadas a transparência e possíveis vieses.

Sistemas automatizados podem reproduzir problemas existentes nos dados, modelos ou critérios utilizados para avaliá-los. Por isso, ferramentas de seleção automatizada já estão sujeitas a regras específicas em alguns mercados.

Em Nova York, por exemplo, determinadas ferramentas automatizadas utilizadas em decisões de emprego precisam passar por auditorias independentes de viés, além de exigir aviso aos candidatos.

Entrevistas de emprego podem mudar com a IA

O caso da HackerRank aponta para uma mudança maior no mercado de trabalho.

Durante os primeiros anos da popularização da IA generativa, empresas discutiram principalmente maneiras de descobrir se candidatos estavam utilizando ChatGPT e outras ferramentas para responder testes.

Agora surge uma abordagem diferente: permitir a inteligência artificial e avaliar se o profissional sabe utilizá-la de maneira eficiente.

Para determinadas profissões, especialmente na área de tecnologia, saber trabalhar com ferramentas de IA pode começar a fazer parte das competências avaliadas durante um processo seletivo.

Com mais de 500 mil entrevistas já realizadas durante os testes do Chakra, essa mudança começa a ultrapassar a fase de experimentação.

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