O primeiro dia do Fórum Nacional de Formação Esportiva foi marcado por um dos painéis mais aguardados da programação.
Com mediação da jornalista Glenda Kozlowski, Hortência e Paula, duas das maiores referências do basquete brasileiro, protagonizaram o painel “Apesar das diferenças, sempre juntas”, trazendo reflexões sobre rivalidade, parceria e os desafios do esporte feminino no Brasil.
O encontro reuniu experiências de décadas de carreira e mostrou como a relação entre as duas atletas ultrapassou a competitividade para se transformar em uma das parcerias mais emblemáticas do esporte nacional.
Rivalidade que impulsionou desempenho
Durante o painel, Hortência destacou que a disputa interna sempre foi um combustível para evolução dentro de quadra, mas sem comprometer o respeito e a admiração entre as duas.
“A Paula foi a pessoa mais importante da minha vida profissional. Eu treinava porque queria ser melhor, e ela também queria ser melhor. A gente usou isso como motivação”, afirmou.
A ex-jogadora reforçou que a concorrência não precisa ser encarada como conflito.
“O seu concorrente não precisa ser seu inimigo. Eu trouxe a Paula para o meu dia a dia e usei isso para crescer.”
Paula também ressaltou que, com o tempo, a rivalidade deu lugar a uma construção coletiva. Segundo ela, o processo foi fundamental para o sucesso da geração.

“Em determinado momento, a concorrência vira parceria. Foi isso que construiu tudo o que a gente viveu. A gente entendeu que precisava estar juntas para chegar mais longe”, explicou.
União foi determinante para conquistas
As atletas destacaram que o amadurecimento da relação foi essencial para os resultados históricos da seleção brasileira, incluindo títulos e medalhas internacionais.
“Enquanto eram só duas, a gente não ganhava nada. Precisamos entender que juntas éramos mais fortes”, afirmou Paula.
Hortência complementou ao destacar a importância da confiança dentro de quadra.
“Eu precisava que ela passasse a bola para mim, e ela precisava que eu convertesse. Foi aí que entendemos que dependíamos uma da outra.”
A sintonia entre as duas, construída ao longo de mais de duas décadas, se tornou um diferencial competitivo da equipe. “Só no olhar a gente já sabia o que a outra queria”, lembrou Paula.
Pressão externa e narrativa da rivalidade

Um dos pontos abordados no painel foi o papel da mídia e do ambiente externo na construção da ideia de rivalidade. Segundo as atletas, a disputa era mais alimentada fora do que dentro da equipe.
“Essa rivalidade pegava mais para quem estava de fora. Entre a gente, sempre houve respeito, carinho e identificação”, destacou Hortência.
Glenda Kozlowski reforçou o impacto dessa construção narrativa ao afirmar que a história do basquete brasileiro não pode ser contada sem a contribuição conjunta das duas atletas.
Desafios atuais do basquete feminino
O painel também abriu espaço para uma análise do cenário atual do esporte no Brasil. Para Hortência, o principal problema está diretamente ligado à falta de resultados recentes.
“O esporte vive de resultados. Sem medalha, não tem visibilidade. E sem visibilidade, menos gente pratica”, avaliou.
Paula apontou a necessidade de renovação e coragem na gestão esportiva. “É fácil falar de fora, mas é preciso ter coragem de renovar, como foi feito na nossa época.”
Base e formação como caminho

As duas atletas foram unânimes ao destacar a importância do investimento na base como solução para o futuro do esporte.
“A formação começa na escola. É lá que você impacta a criança. Se não pensar a longo prazo, esquece”, afirmou Hortência.
O debate reforça o principal objetivo do Fórum Nacional de Formação Esportiva: discutir caminhos estruturais para o desenvolvimento do esporte brasileiro, conectando formação, gestão e resultados.
*O repórter viajou a convite do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC)


